AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DAS RADIOGRAFIAS OBTIDAS NA FORP USP: PROCESSAMENTO RADIOGRÁFICO.
Machado, L.G.; Pardini, L.C.
INTRODUÇÃO
Segundo INGLE (1979), nenhum progresso isolado contribuiu tanto para a melhora da saúde dentária como a descoberta das propriedades maravilhosas dos raios catódicos pelo Professor Wilhelm Konrad Roentgen em novembro de 1895.
Na Odontologia Brasileira o receptor de imagem mais utilizado para os procedimentos radiográficos é o filme radiográfico. Quando um feixe de fótons atravessa um objeto e expõe o filme radiográfico, e atingem os cristais fotossensíveis de haletos de prata da emulsão do filme, mudanças ocorrem por meio da interação desses elementos. Esses cristais quimicamente alterados constituem a imagem latente (invisível) sobre o filme radiográfico (FREITAS, et al, 1989 ;V.E Rushton, 1995).
A idéia de imagem latente implica que as mudanças químicas produzidas pelos raios-x resultam em cristais sensitivos alterados à ação química do processo de revelação que converte a imagem latente em imagem visível (FREITAS, et al, 1989;V.E. Rushton,1994). O processamento radiográfico do filme que contém a imagem latente é um dos principais fatores que podem alterar a qualidade da imagem radiográfica. (V.E.Rushton 1995).
Pode-se observar na rotina clínica da maioria dos profissionais, esse procedimento radiográfico tem sido tratado com enorme desprezo, pois a grande maioria dos cirurgiões dentistas ainda utilizam caixas de revelação portátil para o processamento do filme, fato este que, não se preocupam com a temperatura dos líquidos de processamento, e muito menos com o tempo de passagem do filme por cada substância química (Revelador para Fixador).O resultado desse despreparo, tem sido a perda da qualidade da imagem radiográfica, impossibilitando o uso da mesma para propósitos de documentação e proservação dos tratamentos (FREITAS et al, 1989).

Caixa de Revelação
O exame dentário completo em média inclui 14 radiografias periapicais e 2 bite-wings posteriores, não é mais admissível a ausência de radiografias de todos as regiões dos arcos durante o exame completo do paciente. Na década de 1950 os cirurgiões-dentistas iniciaram um movimento maciço visando minimizar os perigos da radiação ionizante. Este movimento estende-se até hoje com as entidades de classe e com a comunidade preocupadas com os riscos radiobiológicos (Ralph Macdonald 1977).
PROPOSIÇÃO
A proposta desta pesquisa é avaliar a qualidade radiográfica relacionada com o Processamento Radiográfico, das radiografias dos pacientes atendidos nas 11 Clínicas da FORP-USP, no período de 1990 a 1999.
MATERIAIS E MÉTODOS
Foram examinados 1400 Prontuários de Saúde dos pacientes da FORP-USP, pertencentes às 11 Clínicas (Dentístisca, Radiologia, Endodontia, Clínica Integrada, Prótese Fixa, ProntoAtendimento, Periodontia, Prótese Parcial Removível, Cirurgia, Prótese Total , Oclusão),que utilizaram filmes radiográficos periapicais.
A avaliação das radiografias de cada Prontuários foi realizada com auxílio de um negatoscópio com lupa, em sala escura. Foi confeccionado um Protocolo de Pesquisa, onde foram anotados as informações relacionadas com: Procedência do Prontuário, Número de Identificação do Prontuário, Requisitos a serem avaliados relacionados ao processamento radiográficos: Manchas, Densidade (Claro e Escuro).

Sala de Interpretação
Dos 1400 Prontuários de Saúde pacientes da FORP-USP foram analisadas 11501 radiografias, e a partir dos achados radiográficos foram montadas as tabelas para análise e discussão.
RESULTADOS
Das 11501 radiografias das 11 Clínicas da FORP-USP verificou-se que houve erro de Processamento Radiográfico em 3361 radiografias (Tabela 1).
DISCUSSÃO
A radiografia para ser considerada aceitável consistia em obter bom contraste e densidade (diferenças de nuances de tons das cores preta, cinza e branca) e ausência de manchas, indicando que o Processamento Radiográfico foi respeitado em todas as suas etapas (FREITAS, 1989).
Estima-se que existam no Brasil cerca de 60.000 aparelhos de Raios-X odontológicos instalados, sendo que a radiografia dentária deve participar com cerca de 20% dos exames radiográficos realizados na saúde. Esse número crescente de aparelhos, e radiografias dentárias, tem preocupado a comunidade sobre os riscos radiobiológicos inerentes desses procedimentos, e consequentemente, sobre a qualidade das radiografias obtidas.
Para os cirurgiões-dentistas, a compreensão dos riscos associados aos exames radiográficos é muitas vezes incompleta.
O desconhecimento das características de seus aparelhos de raios-x, dos filmes radiográficos e do processamento dos mesmos, aliados a falta de reciclagem, resultam em um aumento desnecessário do risco radioativo, em diagnósticos imprecisos e também em custos adicionais.
Pela tabela 1, pode-se verificar que os resultados encontrados por esta pesquisa, deixa esses fatos evidentes, e parecem estar embasados na relação custo-benefício.
Como ficou evidente, nas 10 Clínicas da FORP/USP que fazem uso do método de processamento visual, em caixas de revelação, possuem as piores radiografias como documentação, já a Clínica de Radiologia, aonde o Processamento Radiográfico é realizado pelo método temperatura/tempo, utilizando câmara escura apropriada , possuem a maioria de suas radiografias em perfeito estado para avaliação diagnóstica , mesmo decorrido vários anos.

Câmara Escura
Atentou-se por grande parte do material radiográfico estava acondicionado em condições não muito aceitáveis. Cartelas de papel rasgadas e picotes das janelas estragadas, e algumas radiografias não tinha identificação do paciente.
Conferiu-se também um grande número de radiografias periapicais soltas dentro dos prontuários sem identificação alguma não tendo como analisá-las.
As cartelas que continham data mas não a disciplina de origem era analisada e tentava-se agrupar esta a seu grupo de origem por dados obtidos na avaliação dos prontuários das disciplinas.
Quando não se era possível agrupar dentro das disciplinas inseriu-se no grupo S/I (sem identificação).As pastas que acondicionavam os prontuários de todas as disciplinas e os filmes radiográficos não possuem boa qualidade pois rasgam facilmente e não há bom vedamento facilitando a perda de material.
Na tabela 1, as Clínicas da FORP/USP foram colocadas em ordem decrescente de quantidade de radiografias aceitáveis, com exceção do grupo S/I. A porcentagem em relação a todo universo de radiografias analisadas (vide tabela-1) tem o intuito de ressaltar o quanto esta interfere no panorama geral de aceitáveis e não-aceitáveis.
A clínica de Radiologia apresentou a maior porcentagem (88,75%) e maior número de radiografias aceitáveis (3757).O número de não-aceitáveis foi de 476 periapicais perfazendo uma porcentagem de 11,25%. Estas radiografias não aceitáveis destacam se as radiografias com manchas sugerindo que os alunos durante o atendimento de paciente não realizam o devido enxagüe final.
A Clínica de Endodontia foi constatado 2744 filmes periapicais aceitáveis tendo uma porcentagem de 60,82%, foram qualificadas como não-aceitáveis 1767 radiografias é o maior número de radiografias não-aceitáveis, mas com uma porcentagem de 39,18%.
A Clínica Integrada com 290 periapicais com a porcentagem de 51,87% e não-aceitáveis 269 radiografias e a porcentagem de 48,13% .
Com a quantidade de 259 radiografias aceitáveis e porcentagem de 73,57%, a Prótese Fixa apresentou 93 não-aceitáveis , com percentual de 26,43%.
O setor do Pronto-Atendimento perfez um número de 203 filmes aceitáveis que são 62,27% e 108 filmes não-aceitáveis que indica percentual de 37,73%.
Entretanto a Clínica de Dentística Restauradora apresentou 165 aceitáveis (55,36%) e 133 não-aceitáveis (44,64%).
A quantidade de aceite em Clínica de Periodontia foi de 138 películas periapicais que correspondem a 70,05% e 59 erros radiográficos com 29,95%.
A Prótese Parcial Removível obteve 64 periapicais aceitáveis com 67,36% e 31 não-aceitáveis que são 32,64%.
A clínica de Cirurgia pontuou com 59 filmes radiográficos aceitáveis (48,76%) e 62 filmes não-aceitáveis (51,24%).
Curiosamente a segunda disciplina em porcentagem de aceitáveis(79,31%), a Prótese Total, somou 23 radiografias deste grupo com 6 radiografias não-aceitáveis (20,69%).
Com o menor número e porcentagem 4 e 14,8% respectivamente em filmes aceitáveis a Oclusão obteve a maior porcentagem também em não-aceitáveis 85,2% que dá um número de 23 radiografias.
O grupo Sem Identificação com 434 películas aceitáveis (56,51%) e 334 não- aceitáveis (43,49%).
Tabela 1:

CONCLUSÕES
A partir desse pesquisa pode-se concluir que:
1. As caixas de revelação portátil não oferecem os melhores meios para o processamento radiográfico.
2. O método temperatura/tempo deve ser utilizado ao invés do método visual, para o processamento radiográfico.
3. As radiografias obtidas nas clínicas de Endodontia apresentaram maior número de não-aceitáveis em relação às outras disciplinas.
4. A radiografia odontológica deve ser corretamente processada para tornar-se um documento e para finalidade de proservação dos casos tratados.
5. Utilizar cartelas de plástico, pois estas teriam uma melhor condição de acondicionar o filme periapical sem que este desvinculasse de sua disciplina de origem e data.
6. Grande perda de material radiográfico (filme periapical) devido a falta de identificação e a disciplina de origem (Clínica). Pastas não acondicionam o material radiográfico com segurança.
7. O nível da qualidade radiográfica pode ser melhorada quando o Cirurgião-Dentista realiza a troca das soluções químicas mais freqüentemente.
Erros radiográficos
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![]() Fixação deficiente |
![]() Radiografia subrevelada |
![]() Radiografia subrevelada |
![]() Radiografia subrevelada |
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREITAS, et al. Radiologia Odontológica. Editora Artes Médicas, 1989.
WUERHRMANN, A.H. Radiologia Dentária. Editora Guanabara Koogan, 5ª edição.
RUSHTON, V.E. and HORNER, K. British Dental Journal. 1995;v.179:254-261.
RUSHTON, V.E. and HORNER, K. Jounal Dentistry. 1994;v.22:213-222.
WEINE, Franklin S. Terapéutica Endodóntica. 1ª edição (Argentina)-1976 pag. 42;51.
McDONALD, Ralph E. Pediatria. Editora Guanabara Koogan, 2ª edição; 1977 pag. 103;104.
DE DEUS, Quintiliano Diniz. Endodontia. Editora Livraria Odontomédica & Jurídica; 1973, pag. 130.
INGLE, Jonh Ide. Endodontia. Editora interamericana, 2ª edição; 1979 pag. 56;72;73.